LIVROS QUEIMADOS! Um ritual de ´purificação´ da história? Entenda o caso em que Tintin, Astérix, Lucky Luke ou Pocahontas foram ELIMINADOS DE BIBLIOTECAS no Canadá [Portal VozdoCLIENTE]

LIVROS QUEIMADOS! Um ritual de ´purificação´ da história? Entenda o caso em que Tintin, Astérix, Lucky Luke ou Pocahontas foram ELIMINADOS DE BIBLIOTECAS no Canadá Geral (Fonte indicada)





Do jornal Sol.PT (Sara Porto):

Em 2019 foram queimados no Canadá cerca de cinco mil livros infantis num ritual de ‘purificação pelas chamas’. Objetivo: a ‘reconciliação com os povos indígenas’. Será que atirar Tintin, Astérix e Lucky Luke para a fogueira contribui para um mundo mais ‘justo’?

Apagar a existência

E se os livros começassem a desaparecer das estantes das bibliotecas não por terem sido requisitados, mas sim completa e literalmente «apagados»? E se, de repente, as histórias que nos acompanharam na infância deixassem de ser permitidas? E se as personagens que nos fizeram sonhar nos primeiros anos da nossa vida, de um momento para o outro, deixassem de «fazer sentido»?

«Cada livro queimado ilumina o mundo», escreveu o filósofo norte-americano Ralph Waldo Emerson, em 1841. E Suzy Kies parece querer levar estas palavras à letra.

Tintin, Astérix, Lucky Luke ou Pocahontas são algumas das personagens que desapareceram das estantes de algumas bibliotecas escolares no Canadá. Ao todo, quase 5 mil livros terão sido destruídos e 30 deles terão sido queimados num ritual de purificação que trouxe à memória as fogueiras de livros da Inquisição, da Alemanha nazi ou, da revolução cultural de Mao tsé-Tung. Mas antes de nos debruçarmos sobre o que motivou a destruição, importa perguntar: porque é que apenas dois anos após o acontecimento tomamos conhecimento do sucedido? 

O ritual

O caso remonta a 2019 e envolve Suzy Kies, ligada ao partido de Justin Trudeau, atual primeiro-ministro canadiano que se encontra, neste momento, em plena campanha eleitoral – as eleições gerais estão agendadas para 20 de setembro e Trudeau espera voltar a constituir Governo. A revelação acontece depois da Radio- Canada ter tido acesso a um vídeo da cerimónia, também numa altura em que o Canadá tem sido abalado com a descoberta, nos últimos meses, de centenas de corpos de crianças indígenas, enterrados sob escolas residenciais, para onde eram levadas depois de retiradas à força das suas famílias (mais de quatro mil crianças morreram enquanto as frequentavam).

No vídeo da autoria da própria Suzy Kies, considerada a «guardiã do conhecimento indígena» que terá ajudado o conselho escolar a escolher os livros que deviam sair das prateleiras, é explicado aos alunos que participaram na cerimónia o seu significado: «Enterramos as cinzas do racismo, da discriminação e dos estereótipos na esperança de crescer num país inclusivo, onde todos possam viver com prosperidade e segurança», ouve-se no vídeo. Segundo a Radio-Canada, cerimónias semelhantes deveriam ser realizadas em cada uma das escolas, mas a pandemia acabou por adiá-las e a ideia inicial de queimar todos os livros também acabou por ser descartada, «temendo-se protestos de pais e professores». O Conselho Escolar Católico de Providence acolhe quase 10 mil alunos em 23 escolas primárias e sete escolas secundárias de língua francesa, localizadas principalmente nas regiões de Windsor, Londres e Sarnia.

As razões da ‘queima’

Depois de queimar os livros, as cinzas foram usadas como fertilizante para plantar uma árvore e assim transformar «algo negativo em positivo», escreve a Radio-Canada. «Esses livros foram ou estão em processo de reciclagem», explicou a porta-voz do conselho, Lyne Cossette, argumentando que os livros retirados tinham conteúdo «desatualizado» e «impróprio»: «É um gesto de reconciliação com as Primeiras Nações e um gesto de abertura para com as outras comunidades presentes na nossa escola e na nossa sociedade», acrescentou.

A Radio-Canada teve também acesso a um documento de 165 páginas que detalha todos os títulos eliminados, bem como as razões que justificaram o seu desaparecimento das bibliotecas escolares – há bandas desenhadas, romances e até enciclopédias. O uso de referências como «esquimó», «índio» ou «pele vermelha», como acontece nos livros de Astérix e Obélix e Tintin, é considerado «ofensivo», assim como a «sexualização de mulheres indígenas» em livros como ‘Astérix e os Índios’, ou num livro sobre Pocahontas, onde a ameríndia é retratada com imagens da Disney.

Um comité formado por membros do conselho escolar, guias indígenas e Suzy Kies – também co-presidente da Comissão dos Povos Indígenas do Partido Liberal do Canadá desde 2016 e descrita no site do partido de Justin Trudeau como «uma aborígene urbana de descendência Abenaki e Montagnais» - analisou centenas de livros infantis sobre as «primeiras nações». 

«As personagens indígenas são apresentadas nos livros infantis como inseguras, preguiçosas, bêbadas, estúpidas», explicou Kies, acrescentando que quando perpetuamos esse tipo de imagem na mente dos jovens, «é difícil livrarmo-nos dela». Também o Ministério da Educação de Ontário esteve envolvido no projeto da cerimónia. Contudo, evitou envolver-se na seleção dos livros.

Os livros em questão

O Conselho Escolar criticou a banda desenhada Tintim na América pela sua «linguagem inaceitável, informação incorreta».

«É um retrato negativo dos povos indígenas, é uma representação aborígene ofensiva», argumentou.
Três livros de Lucky Luke também foram «eliminados» – uma das críticas prendeu-se com o facto de estar representado «o desequilíbrio de poder entre brancos e aborígenes, vistos como bandidos».

O School Board condenou também o livro Living Like American Indians por «não identificar as diferentes culturas aborígenes», apresentando-as como «um todo». Livros que apresentavam artesanato descrito como «apropriação cultura» também foram destruídos, já que, na opinião do comité, são considerados «uma falta de respeito pela cultura indígena» porque apresentam atividades, como comer, escrever e vestir-se como «coisas dos nativos americanos».

A reação dos autores

A queima dos livros tem gerado críticas de vários setores da sociedade canadiana, com alguns dos autores visados a queixarem-se de serem alvo de censura. «As pessoas entram em pânico com a queima de livros, mas estamos a falar de milhões de livros que trazem imagens negativas dos indígenas, que perpetuam estereótipos, que são realmente danosos e perigosos», respondeu Suzy Kies interrogada sobre as contestações. 

«É incrível. Que direito têm eles de fazer tal coisa? É completamente ridículo», denunciou Sylvie Brien, cujo romance infantil The Indian College Affair foi destruído. A história transporta-nos até 1920 e é criada em torno de personagens e lugares fictícios. No enredo uma adolescente defende um aborígene acusado injustamente de causar um incêndio e, por isso, a autora rejeita qualquer preconceito: «Pelo contrário, denunciei coisas», frisou, afirmando ser «uma das primeiras escritores jovens a abordar os horrores das escolas residenciais com base em documentos de época». O conselho escolar não especifica o motivo dessa decisão.

O autor de banda desenhada Marcel Levasseur, do Quebeque, revelou ter ficado arrasado ao saber que o seu personagem Laflèche foi retirado das bibliotecas escolares. Em entrevista à mesma rádio, disse ser «triste e incompreensível». Em 2011, o seu livro foi finalista do Prémio Tamarac, concedido pela Ontario Library Association. «Em 10 anos, passei de vencedor a um autor banido», lamentou.

Ministério da educação - Canadá

O Ministério da Educação de Ontário explicou que a escolha dos livros nas bibliotecas é responsabilidade de cada conselho escolar. «Eles devem garantir que um processo eficaz esteja em vigor para prosseguir com a seleção e aprovação dos recursos a serem usados ​​as escolas. Esses recursos selecionados têm de ser livres de todo preconceito, todas as formas de discriminação e que têm de promover a inclusão», explicou a porta-voz do ministério, Ingrid Anderson.
Justin Trudeau, questionado por jornalistas numa ação de campanha, afirmou que «a um nível pessoal, nunca concordaria com a queima de livros». No entanto, considerou que não cabe a pessoas não indígenas «dizer a indígenas como devem sentir-se ou agir para promover a reconciliação».


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