UFF produz material para impressoras 3D utilizando plástico reciclado UFF - Universidade Federal Fluminense


Créditos Imagem: Fonte UFF.BR



A revista Nature publicou no início deste ano um artigo de uma equipe internacional sobre a chamada Ilha do Lixo, localizada no Oceano Pacífico e com aproximadamente 1,6 milhão de quilômetros quadrados de rejeitos de plástico. Para o professor do curso de Engenharia Ambiental da UFF, Márcio Cataldi, essa mancha de detritos não biodegradáveis está associada principalmente à má educação ambiental de diferentes povos do planeta e às correntes oceânicas, que convergem o lixo para a região do pacífico equatorial.

Com o objetivo de reduzir localmente os danos causados pela poluição, Cataldi e um grupo de estudantes do curso de Engenharia Ambiental da UFF estão desenvolvendo atualmente o Projeto Plástico Vivo. A iniciativa engloba todo o ciclo de reaproveitamento do plástico, que se inicia com a separação e lavagem dos rejeitos. Depois, segundo ele, o produto passa pela trituração com equipamento desenvolvido no Laboratório de Monitoramento e Modelagem de Sistemas Climáticos (Lammoc), com foco em reduzir o custo de todo o processo, inclusive com a criação de instrumentos mais baratos. Após a trituração, o produto moído vai para uma extrusora, máquina utilizada na modelagem plástica, também desenvolvida no laboratório, onde o material será transformado em filamento para utilização em impressoras 3D.

“O plástico reciclado será usado na impressão de utensílios domésticos, como colheres, garfos e facas, e peças sobressalentes do próprio equipamento. Os itens serão vendidos em eventos da UFF, e uma parte desse recurso será destinada aos alunos que se encontram em dificuldades financeiras e que vêm sendo atendidos pela Pró-Reitoria de Assistência Estudantil (Proaes)”, afirma o professor. A previsão, segundo ele, é que o projeto multidisciplinar, ainda em fase de desenvolvimento, apresentará os primeiros produtos impressos já no mês de setembro. Para isso, conta com a participação conjunta de discentes dos cursos de Engenharia Ambiental, Engenharia Mecânica e do Desenho Industrial.

Lecionando Introdução à Engenharia de Recursos Hídricos e do Meio Ambiente, Introdução à Meteorologia e Climatologia, Equipamentos II e Modelagem de Sistemas Ambientais na graduação e as disciplinas Fenômenos de Transporte Computacional e Modelagem Atmosférica na pós-graduação, Márcio Cataldi está envolvido com diversos projetos de extensão: oficinas de educação ambiental, projeto barco-escola, que recolhe o lixo flutuante da Baía de Guanabara e trata o resíduo plástico, bem como os materiais processados pelo projeto Plástico Vivo. Além disso, participa de pesquisas sobre modelagem meteorológica, climática e hidrológica. Todas essas ações têm parceiros dentro e fora da academia, como a Escola de Extensão da UFF, ligada à Pró-Reitoria de Extensão (Proex), que por meio da Fundação Euclides da Cunha (FEC) articula o apoio financeiro dos programas e projetos contemplados pela pró-reitoria, de financiamentos da Faperj, CNPq e também de empresas privadas de energia elétrica, como Enel e Light.

Os países emergentes, principalmente os asiáticos, são grandes poluidores e produtores de resíduo plástico. “Nesse sentido, o Brasil vive hoje uma situação bem crítica, principalmente quando observamos o detrito flutuante na baía de Guanabara”, exemplificou o professor. Para ele, é necessário investir primeiramente em educação ambiental e no combate às embalagens mistas (que reúnem num só produto metal, papel e plástico), o que dificulta a reciclagem mecânica, pois obriga o emprego de mão de obra humana na separação desses objetos. Num momento seguinte, os esforços devem estar focados para a estruturação de cooperativas e no desenvolvimento de tecnologias de reciclagem de baixo custo e fácil manuseio.

Recentemente, a Prefeitura do Rio de Janeiro sancionou projeto de lei que obriga comerciantes locais a oferecerem canudos biodegradáveis aos clientes. Cataldi considera a legislação interessante e torce para que ganhe adesão dos comerciantes e dos consumidores, mas garante que ela não seria necessária se houvesse um investimento educacional sério voltado para o cuidado com o meio ambiente.

Segundo o docente, o papel da universidade nesse momento é fundamental. “É necessário que a instituição ultrapasse seus muros e colabore na divulgação de práticas de educação ambiental e de novas tecnologias com custos baixos como o UFF Sustentável ou Plástico Vivo. Não adianta esperar que essas iniciativas sejam patrocinadas somente pelo Poder Público. Cabe à comunidade universitária arregaçar as mangas e apoiar essas ideias”, enfatizou.

Para enfrentar as questões relativas à conservação do meio ambiente, a universidade vem mobilizando a comunidade acadêmica através da campanha UFF Sustentável, iniciativa que vem despertando interesse da comunidade universitária em diferentes campi, tais como Angra dos Reis, Gragoatá, Macaé, Nova Friburgo, Praia Vermelha e Volta Redonda. As colaborações virão de empresas juniores, trabalhos de conclusão de curso, projetos de pesquisa, além do Hospital Universitário Antônio Pedro (Huap), pequenos empreendedores e servidores administrativos.

Entretanto, segundo Cataldi, essas ações estão em fase embrionária. “Estamos começando! E apesar das dificuldades inerentes a todo o processo, vejo as pessoas com muita coragem e participativas. Acredito, então, que muito em breve começaremos a colher frutos da sustentabilidade na UFF”, preconizou.

A situação e o engajamento da população podem mudar pela simples conscientização das pessoas para essas questões. No projeto barco-escola, por exemplo, Márcio e seus alunos vão às escolas públicas e privadas tentar motivar os estudantes do segundo grau a ingressarem na universidade, o que vem trazendo alguns bons resultados, dado o desinteresse da maioria em continuar os seus estudos, até mesmo por falta de incentivo familiar.

“Nas oficinas de extensão, os universitários que acabaram de ingressar no curso se incumbem de divulgar conceitos e práticas de educação ambiental. O trabalho é direcionado às crianças da rede pública. Plantamos a sementinha da sustentabilidade em cada uma delas”, afirmou Cataldi, ressaltando que o Plástico Vivo pretende ampliar o pensamento sustentável da UFF, incentivando para que surjam medidas que contribuam também para a reciclagem do lixo flutuante da Baía de Guanabara. Ele entende que a instituição tem hoje um papel crucial na formação do cidadão e também na transmissão da cultura do que ele chama de “politicamente sustentável” para a população. Atualmente nesse projeto, o laboratório conta com 20 bolsistas de graduação e 12 de pós-graduação em Engenharia Ambiental.

“Por mais que estejamos sofrendo uma onda covarde de cortes de investimentos na pesquisa, ensino e extensão precisamos buscar meios de lutar contra isso e, simultaneamente, realizar e ampliar as nossas atividades acadêmicas, científicas e extensionistas. Não podemos nos acomodar e nem utilizar a falta de recursos como bengala. Precisamos cada vez mais estreitar as relações com a sociedade, mostrando a excelência e a relevância do nosso papel, como universidade pública e gratuita, em busca de um país com menos desigualdades, mais sustentável e, ao mesmo tempo, propiciando dignidade a todos os seus habitantes”, finalizou o professor.

Na entrevista a seguir a aluna do sexto período do curso de Desenho Industrial, Flávia Xavier Macedo de Azevedo, fala da relevância do Projeto Plástico Vivo:

O projeto mudou sua visão sobre o curso que escolheu fazer?

O projeto Plástico Vivo é extremamente importante para a minha formação especialmente porque é uma oportunidade de usar o design como uma ferramenta de resolução de problemas, se despindo da visão superficial da profissão como algo que serve tão somente para “embelezar” algum produto. Máquinas extrusoras são muito incipientes no mercado, pois fabricam apenas os filamentos que são utilizados na fabricação de objetos pelo método DIY (do inglês Do It Yourself, técnica do “Faça você mesmo”, que pode utilizar impressoras 3D). Comecei a pesquisar equipamentos similares no final do ano passado. Os modelos mais completos que pude analisar eram de 2014, 2016 no máximo, produzidos nos EUA, Holanda e Alemanha.

E como isso se dá no dia a dia?
Senti a diferença na hora de projetar a máquina. O objetivo era fazer um protótipo que pudesse ser feito aqui no Brasil. Tudo devia ser repensado, não só a funcionalidade, mas a forma de produção, a manutenção, a substituição das peças, entre outras questões. Os componentes que fazem parte desse equipamento deveriam estar disponíveis no mercado brasileiro e, ao mesmo tempo, cumprindo os requisitos técnicos mínimos para que a extrusora tivesse sua eficiência garantida. Então, projetar algo que exigiu a tradução de pesquisas estrangeiras e adaptação à realidade nacional foi extremamente enriquecedor na minha formação.

O que influenciou na sua escolha do curso?
Algo que me influenciou academicamente de forma positiva foi a interdisciplinaridade inerente ao projeto. A UFF possui o curso de Desenho Industrial dentro da Escola de Engenharia e isso possibilita maior potencialidade do curso de design em si. Do primeiro ao terceiro períodos trabalhei com ergonomia na Equipe Tuffão Baja SAE, na construção do protótipo de um carro, com alunos de todas as engenharias. E no terceiro período fiz um produto para ser utilizado em reabilitação motora com a assistência do professor Newton Mansur, do Instituto de Física da UFF. Agora, dada a complexidade do projeto, fiz a extrusora com o auxílio do professor de Automação do Departamento de Engenharia Agrícola e Ambiental da Escola de Engenharia, Ivanovich Lache Salcedo, do estagiário em engenharia mecânica do Lammoc, Tito Magno Lavorato Alves Dacal, do próprio Cataldi, e de mais dois alunos marroquinos que estão aqui fazendo intercâmbio. Iniciativas que são desenvolvidas em equipe são extremamente enriquecedoras e todo esse trabalho em conjunto gera só mais conhecimento, trocas e crescimento para todas as partes envolvidas.

Na sua opinião, qual é a importância do projeto para a sociedade?
É evidente que o problema do resíduo plástico influencia, direta ou indiretamente, nossas vidas. Podemos constatar a dimensão desse problema nas regiões mais economicamente vulneráveis do Brasil. Nesse sentido, o Projeto Plástico Vivo tem o objetivo de viabilizar o conceito de sustentabilidade, por meio da reciclagem, como uma solução economicamente viável a ser implantada em municípios com economias mais frágeis. E devido ao consumo exorbitante de materiais poliméricos e a profundidade do conceito de sustentabilidade, não digo que há uma solução única e perfeita para tudo. Há o conjunto de diversas ações que podem melhorar a forma de gestão do resíduo plástico, e nesse caso, a iniciativa reúne num só projeto as questões social, ambiental e financeira, tornando-o especialmente eficiente. Além disso, o Plástico Vivo faz uso da interdisciplinaridade, estratégia importante na construção do conhecimento, criando soluções capazes de surtir efeitos significativos para os problemas que a sociedade enfrenta.

No vídeo a seguir, o professor Márcio Cataldi dá outras informações sobre o projeto de reciclagem do plástico: https://bit.ly/2LKWkmr

 


Imagens e anexos creditados e sob responsabilidade da UFF



Créditos Imagem: Fonte UFF.BR




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