Mãe de adolescente infrator critica ação policial e delegado desabafa: ´É UM TAPA NA CARA´ [Portal VozdoCLIENTE]

Mãe de adolescente infrator critica ação policial e delegado desabafa: ´É UM TAPA NA CARA´ Portal VozdoCLIENTE


A lei protege o menor, principalmente e isso é usado contra a aplicação da responsabilidade e atuação das forças policiais frequentemente no país.



Um delegao da Furtos e Roubos na Grande Vitória (ES) não resistiu e fez um grande desabafo em sua página do Facebook.

O caso ocorreu após ação policial ser duramente criticada pela mãe de um menor, diga-se de passagem, reincidente várias vezes, em crime e pego no flagrante: "Vocês abusaram do meu filho".

Com a chamada e fechamento  "O que é ser policial no Brasil", o delegado relata os fatos e faz críticas ao sistema atual: a polícia muitas vezes é a primeira a ter contato com as áreas mais propensas a crime na sociedade.

O relato do delegado na íntegra pode ser lido abaixo:


Entendam vocês o que é ser policial no Brasil: ontem, a equipe da minha delegacia recuperou um veículo roubado. O crime ocorrera há quatro dias, sendo que o proprietário do carro descreveu em detalhes como dois criminosos o renderam. Um deles chegou a lhe apontar uma arma de fogo, dizendo que, se houvesse reação, ele iria atirar. Os assaltantes queriam levar a vítima como refém, mas o cidadão, aterrorizado com essa possibilidade, conseguiu se desvencilhar e correu. Insatisfeitos, os criminosos, já de posse do veículo, passaram a perseguir a vítima, que só escapou por um triz.

E continua

Pois bem: por meio do trabalho de investigação desenvolvido pela equipe da delegacia, o veículo foi localizado em um estacionamento. Próximo ao carro havia um indivíduo do sexo masculino com características físicas compatíveis com as do sujeito que usou a arma de fogo para amedrontar a vítima. No momento em que esse indivíduo acabara de deixar suas compras no porta-malas do carro (sim, você não leu errado: o suspeito fazia compras de supermercado), os policiais tiveram a certeza de que se tratava do possuidor ilegítimo do veículo roubado. Daí em diante, adotaram o procedimento padrão para abordagem e algemação do suspeito.

Se ainda não ficou claro para alguém: o suspeito seria o indivíduo que apontou uma arma de fogo para a vítima, dias antes. Aquele mesmo indivíduo que prometeu atirar no cidadão caso ele reagisse.

Identificado o veículo após vistoria, o suspeito foi conduzido até a delegacia. Para encurtar a história: tratava-se de um adolescente já com passagem por ato infracional semelhante (roubo de veículo em concurso de pessoas), fato que o levou a ser conduzido a outra delegacia há algumas semanas. Tal informação foi apresentada ao adolescente no momento de sua inquirição. Ouvido na presença da mãe, ele reconheceu que na situação anterior um amigo o chamara para atuar como “piloto de fuga” em um roubo de carro a ser cometido. O roubo deu errado, o amigo foi preso e o adolescente, que no final das contas nem foi visto pela vítima (porque ficou aguardando na esquina enquanto o amigo cometia o crime), foi ouvido e liberado.

No que diz respeito ao carro recuperado por nós, o adolescente negou ter cometido o roubo, mesmo após ter sido reconhecido pessoalmente pela vítima (que usou a expressão “cem por cento de certeza que foi ele quem me apontou a arma”). Em sua defesa, disse o rapaz que comprou o veículo – e falo aqui de um veículo que deve custar uns cinquenta mil reais, por baixo – por singelos mil reais. De quem? De um sujeito que ele conhece apenas de vista. Como? Ele sabia que o tal sujeito vendia carros e então decidiu comprar um. Obviamente, o adolescente não possui habilitação para dirigir. A mãe ouviu tudo, em silêncio.
Como não havia flagrante, fui obrigado a liberar o adolescente e instaurar um procedimento para apurar as demais circunstâncias do roubo. Nesse momento, a mãe do adolescente faz a seguinte colocação (e aqui serei literal): “seus policiais abusaram do meu filho”.

Abro aqui um parêntese: temos vivido dias difíceis em 2017. Um policial civil foi morto recentemente por criminosos ao intervir em um assalto e outro foi baleado no início dessa semana. Encontra-se internado, em estado grave. O bandido, com essa sorte demoníaca que eles possuem, foi baleado na perna e encontra-se fora de perigo.

Indaguei então à genitora o que ela quis dizer com tal afirmação. Afinal, o adolescente estava sentado à minha frente e parecia até bem-humorado demais para quem acabara de dizer que comprara um carro por mil reais de um sujeito desconhecido. Ela afirmou que o filho lhe dissera que havia sido algemado e que os policiais o dominaram usando de força física. Falou ainda que isso era um absurdo, porque, afinal de contas, o filho dela não era bandido. Disse, por fim, que voltaria no dia seguinte com um advogado.

Sou uma pessoa extremamente paciente. Paciente até demais. Meus quilos a mais, meu refluxo gastroesofágico, minhas fraturas dentárias, minha falta de sono, muitos dos meus problemas pessoais podem estar ligados a esse excesso de paciência.

Só que a minha paciência acabou.

Sim, eu falei. Falei tudo o que eu pensava para essa senhora.

Falei que meus policiais agiram corretamente e que continuarão a agir assim, porque entre o choro da mãe de um bandido e o choro da mãe de um policial, eu entendo que é a mãe do bandido que deve chorar. Se o indivíduo está em uma situação suspeita, a abordagem deve ser enérgica, dentro dos preceitos técnicos ensinados nos cursos dos quais participamos. Simples assim.

Falei que o filho dela era, sim, um criminoso. Ele já participara de um assalto e agora estava envolvido, no mínimo, em uma receptação. No mínimo! Já são dois atos infracionais na conta do adolescente.

Falei que, enquanto ela reclamava da atuação dos meus policiais, um colega de trabalho estava internado na UTI entre a vida e a morte, sendo que o bandido que nele atirou era tratado em outro hospital às custas dos recursos que vêm dos impostos que eu pago. Contra a minha vontade, mas pago.

Falei que eu seria obrigado a encaminhar o adolescente ao DML para se submeter a exame de lesões corporais. Afinal, são pessoas como ela que, quando nós não adotamos tal precaução, procuram a Corregedoria, o Ministério Público, a imprensa e sei lá mais quem com a finalidade de tecer falsas acusações. Assim, gente que trabalha sério perde horas de sono e de trabalho se defendendo desse tipo de coisa – situação que já ocorreu comigo em duas ocasiões.

Falei que a conduta dela, no papel de mãe, estava errada. Que o filho dela ainda teria recuperação, mas tal recuperação não viria por conta de uma energia divina emanada diretamente dos céus sob forma de raio de luz, fazendo com que o adolescente mude de vida em um piscar de olhos, e sim de uma mudança de postura dela e do filho. Virá da autoconsciência de que os atos dos dois são errados: a mãe é superprotetora e o filho acredita que entrar para o crime lhe trará algum benefício. A recuperação virá somente após a adoção de uma postura de auto-responsabilidade de ambos. Não há outra saída.

Falei que chego em casa à noite e durmo com a consciência tranquila. Que repetiria esse discurso quantas vezes fossem necessárias e para qualquer pessoa. Repetiria porque acredito nele.

Entendo que vender a ideia de que a redução da maioridade penal será uma solução para os nossos problemas de segurança pública é uma tremenda balela. Não resolverá. Entendo que Bolsonaro é um sujeito farsesco, que se aproveita do desespero da população brasileira para promover a si próprio e aos seus familiares. Entendo que pena de morte é uma política pública que, quando aplicada, só é dirigida para a população pobre, o que a torna uma medida injusta. Entendo que a corrupção é o pior crime que existe, representando um verdadeiro câncer para a nossa frágil democracia.

Constatar, “in loco”, que nossa nação está doente e sem perspectiva de cura. Lidar diariamente com o pus que escorre de uma ferida fétida. Receber, como reconhecimento, apenas um eventual tapinha nas costas. Considerar todos os dias uma mudança de emprego, de país, ou sonhar com a aposentadoria.

Isso é ser policial no Brasil.

Fonte: https://www.facebook.com/profile.php?id=100008929094026


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