Bob Dylan e Carlos Drummond: Tudo a ver! Tese analisa influências da vida no cantor e no escritor Portal VozdoCLIENTE





Da UFMG:

O poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade e o cantor e compositor norte-americano Bob Dylan, ambos criados em cidades marcadas pela exploração do minério de ferro (Itabira e Hibbing, Minnesota), têm muito mais em comum.

Para o pesquisador Fernando Baião Viotti, que investigou as obras dos dois artistas sob perspectiva comparada, no doutorado em Estudos Literários, os artistas são movidos por forças, em princípio, opostas, como a cultura popular e a erudita, a metrópole e a província, a arte participante e o mergulho em si mesmo.

A respeito da coincidência que suscitou farto material de análise na tese, Viotti sustenta que “o ferro da origem é mais um de muitos elementos simbólicos que ambos utilizam para forjar sujeitos líricos de natureza imprecisa, exótica, avessos a se identificarem sob uma alcunha determinada”.

O trabalho de Fernando Viotti é abordado na edição 2.033 do Boletim UFMG:

Onde os grandes se encontram: Engajamento social e mergulho interior

Itabira, Minas Gerais, e Hibbing, Minnesota (EUA). Marcadas pela exploração do minério de ferro, a cidade em que nasceu o poeta Carlos Drummond de Andrade e aquela onde cresceu o cantor e compositor Bob Dylan protagonizariam não mais que uma abordagem lateral, promovida pela coincidência, na tese de Fernando Baião Viotti, defendida há poucos meses na Faculdade de Letras. Mas acabaram ganhando mais espaço no estudo de perspectiva comparada. 

De acordo com o autor, poemas e canções que de alguma forma remetiam ao assunto foram construindo o diálogo que ocupa dezenas de páginas. “Encontrei farto material mostrando o quanto Itabira e Hibbing constituem pontos de convergência em que a experiência pessoal se mistura ao mito e ao conhecimento histórico”, conta Viotti.

Dylan escreveu: “Eu sou daquela cor; minha mente e meus sentimentos vêm de lá... onde a terra é preenchida com minério de maneira incomum”; Drummond, por sua vez: “[...] nasci em Itabira / Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro”. Segundo Fernando Viotti, essa identificação, “nunca isenta de contradições”, teve impactos profundos em ambas as obras.

“A experiência da província é o filtro pelo qual esses artistas se relacionam com o mundo grande para onde se deslocaram ainda muito jovens. Dotados desse filtro, eles observam o espaço urbano com olhos estrangeiros, sem aquele sentimento de pertencimento do citadino, ainda que tampouco demonstrem pertencer à província”, afirma o pesquisador, em entrevista por e-mail, da Austrália, onde vive e produziu parte da tese, em temporada sem vínculo formal na University of New South Wales. Segundo Viotti, “o ferro da origem é mais um de muitos elementos simbólicos que ambos utilizam para forjar sujeitos líricos de natureza imprecisa, exótica, avessos a se identificarem sob uma alcunha determinada”.

Forças contrárias

De acordo com Fernando Viotti, a maior descoberta da pesquisa foi, provavelmente, a ocorrência simultânea, e recorrente, de forças, em princípio, contrárias. “Entre a cultura popular e a erudita, a província e a metrópole, a simplicidade e a complexidade da linguagem, a arte participante e o mergulho em si mesmo, Drummond e Dylan ficam com todos”, diz o autor da tese, acrescentando que é muito difícil classificá-los em escolas específicas. “Não se trata apenas de artistas que se transformaram profundamente; neles, os polos opostos estão em permanente fricção.”

Viotti lembra que, embora tenha optado por uma comparação pouco usual (entre um poeta brasileiro e um compositor popular norte-americano), utilizou bibliografia “quase ortodoxa”, feita de nomes como T.S. Eliot, Theodor Adorno, Antonio Cândido e José Guilherme Merquior. E revela que enfrentou dificuldades causadas pelo fato de trabalhar com duas línguas e ter de levar em conta particularidades que não raro se perdem nas traduções. Foi preciso também lidar com a discussão sobre o estatuto da canção em face da literatura. “É a leitura cuidadosa, paciente, que revela em muitas canções os processos estéticos que as aproximam de um poema. A canção, obviamente, não é um poema, mas é preciso lembrar que essa separação é relativamente recente. Os poemas homéricos surgiram como poesia cantada, e as primeiras manifestações poéticas da língua portuguesa tiveram também a forma de canção, com a lírica trovadoresca do século 12.”

De acordo com o pesquisador, uma obra ilumina, na outra, elementos que já estavam presentes, mas relativamente na sombra. Ele conta que a tese recupera temas mais ou menos consagrados nas fortunas críticas, mas que ele tenta mostrar vínculos inesperados. “Além disso, separadamente, as obras de Drummond e Dylan ensinam muito também sobre as possibilidades da forma poética, as relações entre linguagem e pensamento e projetam uma visão de mundo muitas vezes desencantada, mas profundamente enriquecedora.”

Tese: Um mundo feito de ferro: a lírica de Drummond e Bob Dylan

Autor: Fernando Baião Viotti
Orientadora: Silvana Maria Pessôa de Oliveira
Defesa: junho de 2018, no Programa de Pós-graduação em Estudos Literários



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