Pesquisadores realizam travessia inédita pelo interior da Antártica [Portal VozdoCLIENTE]

Pesquisadores realizam travessia inédita pelo interior da Antártica Portal Brasil


Pesquisadores farão a primeira travessia científica brasileira na parte central do continente gelado



Quatro pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) embarcam neste domingo (28) de Porto Alegre rumo à cidade chilena de Punta Arenas.

O grupo seguirá viagem de avião para a geleira Union, ponto de partida de uma travessia de três semanas e 1,4 mil quilômetros pelo interior da Antártica, a bordo de caminhonetes adaptadas à neve, com três eixos e tração nas seis rodas.

O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) financia a expedição.

Segundo o glaciologista Jefferson Simões, líder da equipe, trata-se da primeira travessia científica brasileira na parte central do continente gelado.

"Essa missão requer uma preparação logística que demonstra o amadurecimento do Programa Antártico Brasileiro [Proantar]", avalia o pesquisador, que é diretor do Centro Polar e Climático da UFRGS e coordenou a elaboração do plano de ação Ciência Antártica para o Brasil, lançado em maio e válido até 2022.

No trajeto, previsto para durar até o fim de janeiro, o grupo planeja coletar amostras de neve e gelo.

O objetivo é gerar dados para avaliar impactos da ação humana sobre a atmosfera nos últimos 50 anos, como a presença de substâncias poluentes na superfície do continente, além de mapear e preparar o local para a instalação do módulo científico Criosfera 2, estrutura similar ao Criosfera 1, primeira plataforma de pesquisas do Brasil no centro da Antártica.

Simões explica que uma das frentes da pesquisa busca conferir se há certos tipos de fuligem depositados no interior do continente.

"Já existe algum transporte de subprodutos de queimadas de florestas, como o carbono negro, entre a América do Sul e a Antártica? Nós não sabemos", diz.

"A questão é: será que chega? E se chegar, a proporção é danosa, qual é a proporção? O que mais preocupa a comunidade glaciológica é que isso escurece a superfície e pode mudar a proporção de energia refletida de volta e aumentar o aquecimento. O manto de gelo absorveria mais calor e, assim, derreteria mais."

Módulos

A expedição passa pelo Criosfera 1, posto latino-americano mais próximo do Polo Sul geográfico, instalado em 2011.

De acordo com o glaciologista, neste momento, cinco pesquisadores coletam material e realizam a manutenção técnica do módulo – estrutura que, no restante do ano, opera automatizada e envia dados por satélite ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe/MCTI), sem acompanhamento humano e movida a energia eólica e solar.

No inverno, os termômetros já registraram 65 graus Celsius (ºC) negativos.

Prevista para o virada de 2015 a 2016, a montagem do Criosfera 2 deve ocorrer em um raio de cerca de 20 quilômetros, dentro de trecho a ser reconhecido durante a travessia, a 2,2 mil metros de altitude.

Conforme esclarece Simões, o ponto escolhido deve coincidir com o topo da bacia de drenagem de gelo que se divide entre os mares de Amundsen, a sudeste do Pacífico, e de Weddell, mais próximo ao Atlântico.

"A região, portanto, pega os finais das duas áreas continentais", destaca. "Nós temos interesse por esse local porque provavelmente é muito sensível a pequenas variações climáticas que ocorrem nos dois oceanos, mas não sabemos ao certo."

Embora o módulo Criosfera 1 tenha registrado a menor temperatura (-65ºC) até o momento, Simões acredita que o Criosfera 2 vá conviver com condições climáticas ainda mais severas, pela altitude de 2,2 mil metros, diante de 900 metros do primeiro módulo.

"Parte desse caminho é inédita, ninguém andou por lá, apenas sobrevoou de avião", conta Simões, que espera enfrentar –30ºC no manto do gelo a ser percorrido.

Desafio

O grupo deve deixar Punta Arenas em direção à geleira Union em 5 de janeiro, por meio de uma aeronave Ilyushin 76, adaptada para pousar em pistas de gelo.

De lá, com duas caminhonetes Toyota Hylux 6x6, reforçadas na tração e dotadas de pneus largos, eles rodam 520 quilômetros até o Criosfera 1, de onde partem para outra viagem, de 650 quilômetros, com destino ao monte Johns, região do Criosfera 2. Já no fim do mês, os pesquisadores retornam ao ponto inicial.

Para Simões, o principal problema de segurança a ser enfrentado pela equipe da travessia são as possíveis fendas no trajeto, que estão sendo monitoradas por sensoriamento remoto para que seja possível e evitar esses trechos.

"Os buracos são muito largos e representam risco se a gente anda de carro ou a pé, mesmo alguém que sai caminhando na frente ou andando de esqui. Então, fazemos ciência, mas tem também um aspecto aventureiro", comenta. 

Formam o quarteto de pesquisadores junto ao diretor do Centro Polar e Climático da UFRGS o engenheiro químico Felipe Lindau, o doutorando em Geologia Luciano Marquetto e o químico Ronaldo Tomar Bernardo. Também integram a expedição terrestre dois motoristas e um guia montanhista.

A travessia científica, a montagem do Criosfera 2 e a manutenção do Criosfera 1 até fevereiro de 2016 estão garantidos por recursos da Coordenação para Mar e Antártica do MCTI. As atividades integram o Proantar, com apoio da Secretaria da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar (Secirm).



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